quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

GCM - Abnegação e Benevolência em um lugar chamado Cracolândia

Eu poderia utilizar este espaço para fazer duras críticas à política (ou a falta de uma) que o poder público tem adotado para o gravíssimo problema relativo ao crack na cidade de São Paulo e, em especial, na região da cidade conhecida como Cracolândia. No entanto, quero ressaltar um episódio admirável que presenciei nos últimos dias naquele lugar.

O fato diz respeito à atuação da GCM (Guarda Civil Metropolitana), que trabalha na Cracolândia. Sem entrar no mérito da questão quanto ao trabalho que é realizado ali, pela GCM, até porque eles cumprem determinações de seus superiores, chamou-me a atenção a forma com a qual este trabalho vem sendo feito.
No último dia 20 de dezembro, em uma situação limite, fui àquela região a procura de um rapaz, dependente químico, que havia sumido de casa havia quatro dias e, ao que tudo indicava, poderia estar naquele local. Estacionei meu carro próximo a uma unidade móvel da GCM, no “coração” da Cracolândia, onde pedi ajuda. Fui prontamente orientado pelas GCMs Virgínia e Edivânia, profissionais que fizeram algumas recomendações para minha segurança, além de solicitarem uma foto do rapaz, para facilitar sua identificação.
Naquela tarde permaneci na Cracolândia por aproximadamente três horas, tempo necessário para encontrar o rapaz. A procura foi rápida, porém o restante do tempo foi empregado em longas conversas e negociações para convencê-lo a sair dali comigo em direção a uma clínica de tratamento.


GCM'F Virgínia Moraes








Durante minha permanência naquele lugar,  muitas vezes acabei ficando sozinho, já que o rapaz, devido aos efeitos da droga, ou ficava paranóico, desconfiando que eu estivesse armando alguma emboscada para capturá-lo, ou ficava fissurado por usar mais droga. Estes sintomas fizeram com que ele adentrasse algumas vezes em um daqueles prédios abandonados e semidestruídos, ora se escondendo, ora em busca de mais drogas. Nestes momentos busquei segurança junto à unidade móvel da GCM, onde trocava informações com as policiais sobre a situação.

Por fim, consegui levar o rapaz diretamente para uma clínica em Mairiporã-SP e, depois de interná-lo, liguei para os pais comunicando as boas novas.
 
Quando tudo parecia resolvido, já que o rapaz não mais estava correndo risco de vida e seus pais finalmente poderiam dormir mais tranquilos e passarem um Natal com um pouco de esperança no coração, no dia 23 de dezembro recebemos a notícia de que a clínica o havia deixado ir embora, alegando que o ambiente estava tumultuado com sua presença, já que ele não queria ficar internado (sinais claros de abstinência). Eu também vou me abster, neste momento, de comentar a postura da clínica neste caso.

Uma vez que não voltou para casa naquele dia, deduzi que ele poderia ter voltado à Cracolândia. Fui até lá no dia 24, pela manhã, e o procurei em vão, até encontrar com a GCMs Virginia que, lembrando-se de mim, disse-me tê-lo visto ali havia menos de quarenta minutos. Liguei para o pai do rapaz, que prontamente encaminhou-se para lá. A partir deste momento a GCM dividiu-se em duas frentes: uma para buscar o rapaz, que se encontrava no meio da multidão de frequentadores da Cracolândia (só quem esteve nesse lugar sabe a dimensão do que isto representa), e a outra oferecendo suporte emocional ao pai, procurando acolhê-lo, pois percebiam sua ansiedade e desespero.
Quando a GCMs Virginia já mantinha o rapaz sob sua guarda, teve a sensibilidade de ligar em meu celular, avisando onde ela e seus companheiros da GCM se encontravam, para que fôssemos ao seu encontro.
Durante este trâmite, deixamos de sobreaviso o resgate especializado e também uma clínica com melhor estrutura para estes casos, conduta que finalmente pode ser concretizada após a ação extremamente competente e compassiva da equipe da GCM que atua naquela área, que me permito fazer representar na pessoa da GCMs Virginia Moraes, por quem estou profundamente grato, pois ela agiu da maneira como eu sempre esperei ser atendido por um representante da segurança pública. Determinação, educação, respeito, sensibilidade e humanidade foram os princípios que dirigiram suas ações. Também pude notar, pois ficou claro, que a GCM trata os frequentadores da Cracolândia, não como delinquentes, mas sim, como seres humanos que estão doentes.
Equipe da GCM 

São atitudes como as da GCMs Virginia Moraes que fazem manter acesa a chama de esperança que ainda conservo em meu coração, de que um dia o horror e o flagelo que vivenciam tantos dependentes e suas famílias cheguem ao fim.


Psicólogo MARCOS ANTONIO MANFREDINI
Diretor da: LEMA VIDA E SAÚDE - Diagnóstico, Prevenção e Tratamento em Saúde Mental


Artigo copiado de: www.lemavidaesaude.com.br/

Nenhum comentário:

Postar um comentário