quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Intelectuais de esquerda atacam Lula

Manifesto pede garantias à democracia contra autoritarismo do presidente; D. Paulo Arns e Bicudo, fundador do PT, assinam

Regiane Soares

Os ataques do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra a imprensa na cobertura das eleições presidenciais repercutiram, nesta quarta-feira (22), em frente à Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, no Centro da capital. Preocupados com o "discurso autoritário" e com o "comportamento fascista" do presidente, um grupo de juristas, advogados, professores universitários e intelectuais divulgaram o manifesto "Se Liga Brasil", em defesa da democracia. Para os líderes do movimento, o presidente tem o direito de manifestar sua opinião e até fazer campanha para seus candidatos, mas não deve usar a máquina pública nem insuflar o povo.

Entre os signatários do documento está o jurista e militante dos Direitos Humanos Hélio Bicudo, um dos fundadores do PT e ex-vice-prefeito de São Paulo na gestão de Marta Suplicy (PT), de 2001 a 2004. Ele disse que o ato foi feito nesta quarta-feira, a 11 dias das eleições, porque o momento é de crise, com a ex-ministra Erenice Guerra (Casa Civil) "afogada" em corrupção. "Estamos à beira de um governo autoritário que vai passar por cima da Constituição e das leis", afirmou o jurista, que deixou o PT em 2005, à época do escândalo do "Mensalão".

Aos 88 anos, Bicudo foi o responsável pela leitura do manifesto no parlatório do Largo São Francisco. Com equipamento de som precário e com calor de 30º C, o jurista pediu para que o público presente, cerca de cem pessoas, repetisse cada frase do documento. "Isso eu aprendi com dom Paulo (Evaristo Arns)", afirmou. O arcebispo emérito de São Paulo também assinou o manifesto, mas não participou do ato. Ao final, cantaram o Hino Nacional.

O manifesto ressalta a soberania da Constituição e chama de constrangedor o comportamento do presidente, que "não vê no outro um adversário que deve ser vencido segundo as regras da democracia, mas um inimigo que tem que ser eliminado." Para o ex-ministro Miguel Reale Jr. (Justiça), Lula tem tido um comportamento "facisca" ao denunciar a imprensa e dizer que o Brasil não precisa de formadores de opinião. "Essa é uma ideia substancialmente fascista de uma imanência da verdade a partir de uma posição populista, isto é efetivamente fascismo", afirmou. Bicudo concordou com Reale Jr. ao afirmar que o presidente "tenta desmoralizar a imprensa e todos aqueles que se opõem ao seu poder pessoal."

Segundo o ex-ministro José Gregori (Justiça), a "gota d?água" para realizar o manifesto foram as recentes manifestações de Lula contra a imprensa. "É um comportamento que fere a Constituição e que até prejudica a causa que ele defende", disse, ao ressaltar que o ato foi "um recado".
 

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