quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Blogosfera muda a cara da polícia

Policiais usam a rede para discutir com colegas, ajudam a desmistificar profissão e aproximam população da PM

domingo, 1 de novembro de 2009 14:39
por
Tatiana de Mello Dias

Um é soldado, o outro é aspirante-a-oficial, e o terceiro, tenente. Eles têm patentes diversas e são policiais em lugares diferentes do Brasil, mas têm uma coisa em comum: estão colocando a Polícia Militar de seus Estados na web 2.0.
No Rio de Janeiro, o tenente Alexandre de Sousa, 25 anos, é considerado um dos pioneiros na chamada blogosfera policial, fenômeno de que virou até um estudo apoiado pela Unesco.
Seu blog, o Diário de um PM, virou referência e inspirou dezenas de policiais a trilharem o caminho da internet para falar com os colegas, ser ouvidos pelo comando e se aproximar da população.
O Diário foi a principal inspiração para o aspirante-a-oficial baiano Danillo Ferreira, de 23 anos, criar o blog Abordagem Policial. Focado em discussões sobre segurança pública e sociedade, o blog foi criado pelos colegas na academia de polícia – hoje é apontado como leitura obrigatória no universo policial.
Já o goiano Robson Niedson, 27 anos, criou o Diário do Stive, um blog e agregador da blogosfera policial, e desenvolveu, ainda, o blog do comandante-geral da PM de Goiás, coronel Carlos Antônio Elias.
Os três policiais militares se conheceram pela internet e, em agosto desde ano, ajudaram mais de 30 outros policiais militares a construirem seus próprios blogs e perfis no Twitter e durante uma oficina na Conferência Nacional de Segurança, em Brasília.
“Foi quando a blogosfera policial se tornou um tema de terno e gravata para o Ministério da Justiça. Porque aquilo que podia parecer algo meio subversivo, coisa de gente da internet, virou uma das atividades oficiais da área de segurança pública”, explica Sílvia Ramos, socióloga e uma das responsáveis pela pesquisa da Unesco sobre o tema.


Alexandre: diário de um PM no Rio de Janeiro





Se hoje a blogosfera policial existe e tem relevância, o tenente da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) Alexandre de Sousa, 25 anos, é um dos principais responsáveis. Ale de Sousa, como é conhecido na blogosfera, entrou para a polícia aos 20 anos, influenciado pelo pai, militar da Aeronáutica. E por que a polícia? “Matemática! Por sorte, ou ajuda divina, sou melhor em humanas”, diz.
Foi a partir do lançamento do livro A Elite da Tropa, em 2006, que ele percebeu o quanto o universo policial fascinava a sociedade. Dos blogs despretensiosos “que ninguém lia”, surgiu seu próprio Diário de um PM. “Tinha muita gente falando de polícia e segurança pública, mas poucos eram policiais. Queria contribuir, com a visão de alguém de dentro da corporação”. Na época, raríssimos policiais se aventuravam na web – opinar era correr risco de sanção. “Os comandantes não sabiam o que era blog”, conta.
O policial-blogueiro vive no quartel-general da PM do Rio. Bloga quando pode. Diz que desde que começou a trabalhar no Centro de Comunicação e Informática (CCI) da PM não atualiza o blog. “A gente está trabalhando além da conta”, ri, se lembrando da responsabilidade: “Estamos tomando decisões importantes que vão ter um resultado de longo prazo”.
Para ele, a entrada da polícia na era 2.0 é irreversível e acompanha a tendência dos novos tempos. “Quem está entrando nos concursos agora já está familiarizado com essas ferramentas. Daqui a pouco, essa geração dos blogueiros vai estar assumindo os comandos”, diz.

O Diário de um PM foi o pioneiro. Do blog surgiram outras demandas: o PM Tube, site com uma seleção de vídeos policiais, e a rede social Aspiras, com quase seis mil cadastrados. “Comecei a colocar informações sobre os concursos e criei uma comunidade dos candidatos”, conta o PM.




Danillo: quando um nerd entra para  polícia



Quando prestou o concurso para a PM da Bahia, aos 20 anos, Danillo Ferreira não sabia bem o que lhe aguardava. “Caí de paraquedas.” Na academia de polícia, as discussões sobre segurança pública ultrapassavam a sala de aula e ganharam o ambiente online com o blog Abordagem Policial.
“Percebemos que policiais não tinham fonte de informações para se posicionar”, conta Ferreira. Ele e os colegas estenderam a cobertura, com seções de estratégia e concursos, além da coluna do leitor, “para não acontecer com os outros o que aconteceu comigo, de entrar na polícia sem saber como é”.
Por sorte ou vocação, Ferreira se afeiçoou à profissão. Hoje, como aspirante-a-oficial, faz a coordenação do policiamento da cidade. Atualiza o blog em casa, à noite, e durante o dia twitta – e muito – pelo celular. Comenta notícias, divulga assuntos relativos a segurança pública e, de quando em quando, solta um “twittando do banco da viatura”. “É interessante que as pessoas vejam os bastidores.”
Danillo hoje coordena o policiamento e ajuda a definir o horário das rondas. “Na área em que atuo tenho que estar sempre de olho na mídia”, diz ele, que usa também a web 2.0 para se informar. “Em um comentário pode vir uma denúncia, alguém dizendo que o policiamento em tal bairro está ruim.” Para ele, o ideal seria que cada unidade da polícia tivesse um blog para se aproximar da população. Agora, assim como aconteceu com seus colegas, Danillo se prepara para mais uma missão: foi chamado para criar o blog do comandante-geral na Bahia.

Além do Abordagem, Ferreira tem o blog Café do Dom, sobre literatura e filosofia, e se prepara para lançar o Cine 190, em que comentará filmes policiais sob a ótica de um policial militar. “Tem muita gente especialista em cinema que não conhece a atividade policial”, justifica.




Robson: o soldado que levou o blog ao comando



O goiano Robson Niedson era professor de informática quando virou policial, em 2003, levado por estabilidade, salário e incentivo da família. Programador, já na PM criou o Blog do Stive (apelido comum entre PMs em alguns Estados).
Blogueiro escolado, foi ele quem sugeriu ao comandante-geral da PM de Goiás, coronel Carlos Antônio Elias, a criação de um blog. Sua proximidade com o comando surpreendeu as pesquisadoras Anabela Paiva e Sílvia Ramos, que contaram com o seu apoio na pesquisa da Unesco. Elas tentavam montar uma mesa com policiais blogueiros para o Fórum de Segurança, realizado em abril em Vitória (ES), quando oficiais cariocas foram proibidos de ir pelo comando. Alguém sugeriu Niedson. Sílvia perguntou para ele: “Mas no Rio o comando proibiu oficiais de ir, você é soldado, quem me garante que você vai poder ir?”. O goiano respondeu: “Olha, eu criei o blog do comandante-geral, acho que ele não vai se opor”.
Agora, todas as unidades da PM de Goiás terão blogs para registrar ocorrências e documentar os fatos – e quem dará os cursos será o soldado Niedson. “Ministrar as aulas seria impossível, pois sou um soldado. Para dar um curso, teria que ser superior a mim”, conta.
Os comandos também terão contas no Twitter, criadas pelo programador-policial. As ferramentas servirão para os comandos se comunicarem com a tropa e com a população em suas regiões. Para Niedson, essa blogosfera ajuda a mudar a imagem da polícia. “Você sabe, há lugares em que a PM desperta mais medo do que sensação de proteção.

Niedson é um dos responsáveis pela união em torno da blogosfera policial. Hoje, o Blog do Stive, além de blog, é um agregador de blogs policiais. O PM também mantém um podcast e cuida do portal Blogosfera Policial, que tem até camiseta. Niedson também tem um blog pessoal sobre tecnologia e entretenimento.
Fonte: Portal do Estadão

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 Veja também:

Blogs de PMs subvertem hierarquia

Estudo da Unesco mostra como a web 2.0 torna mais horizontais relações entres comandante e comandados
Tatiana de Mello Dias  - O Estado de S. Paulo


SÃO PAULO - Ferramentas capazes de revolucionar a comunicação entre internautas, blogs e Twitter passaram a subverter a hierarquia em quartéis e nas delegacias. O estudo Do Tiro ao Twitter, lançado ontem pela Unesco, mostra que esses instrumentos criam canais de troca de informações entre as forças policiais na chamada web 2.0 e promovem mudanças em instituições de segurança pública. As pesquisadoras Sílvia Ramos e Anabela Paiva, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, registraram a existência de cem páginas na blogosfera policial - e o número é crescente.




"Há uma crença de que é proibido falar, de que o militar apenas cumpre ordens. É um conceito errado", diz o coronel Mário Sérgio de Brito Duarte, comandante-geral da Polícia Militar do Rio. Ele criou seu primeiro blog em 2006, sobre segurança pública, e, ao assumir o comando da corporação, em julho deste ano, lançou o Blog do 01 (veja mais nesta página). Entusiasta das ferramentas da web 2.0, Duarte foi surpreendido pelo surgimento de perfis anônimos no Twitter com críticas e denúncias sobre a corporação.

O mais ácido deles é o @bocadesabao, que divulgou boletins internos da PM. Um tenente, Carlos Barrim, chegou a ser interrogado pelo comando sob suspeita de estar por trás do perfil. Comprovada a sua inocência, o tenente narrou o interrogatório em seu blog (www.carlosbarrim.com.br), com a anuência do comandante.

"Nós, da sociedade civil, às vezes não nos damos conta da mudança profunda que isso está provocando, sobretudo na Polícia Militar", diz a socióloga Sílvia Ramos. Para os policiais, ver o coronel comentar as opiniões de cabos e soldados não seria possível se não fossem os blogs. "Isso demonstra que a legislação militar está caduca, em certo sentido, porque está havendo um diálogo com superiores sem que haja agressão ou desrespeito", diz Danillo Ferreira, aspirante-a-oficial da Polícia Militar da Bahia e autor do blog Abordagem Policial.

"Os policiais têm muito a contribuir nas discussões de segurança pública, independentemente de sua posição hierárquica", diz o tenente Alexandre de Sousa, criador de um dos blogs mais antigos e famosos da blogosfera, o Diário de um PM. Para Sílvia e Anabela, que passaram o ano estudando o fenômeno, os blogs estão "horizontalizando" a hierarquia militar. Na web 2.0, qualquer um pode abrir um blog e passar a ser ouvido - é o ambiente em que um soldado pode ter mais importância do que um coronel.

O levantamento mostrou que hoje a maioria dos blogueiros (58%) é da PM. A Polícia Civil representou 13% do universo pesquisado. "Uma das razões pode ser a de que eles têm mais necessidade de se expressar. Na PM, há muita repressão à expressão", diz Anabela. E blog, para os policiais, é coisa séria. O estudo apontou que 40% deles acreditam que o blog é um meio de expressão política, para 31,4%, parte do trabalho e para 17%, serviço público.

No geral, os policiais usam a internet para discutir segurança, reivindicar e denunciar. Talvez por esse motivo, segundo a pesquisa, 37% dos blogueiros já tenham sofrido represálias. "O estatuto militar proíbe explicitamente a manifestação pública de um policial sobre assuntos relacionados à polícia", diz Sílvia. As repreensões ocorrem de várias formas: ameaças (relatadas por 25% dos entrevistados), procedimentos formais de punição (22%), conselhos para parar (22%), e-mail com intimidações (11%), prisões (3,7%) e sensação de que estão sendo preteridos na carreira (3,7%).

O cenário, porém, está mudando. Seguindo o mesmo movimento da sociedade, a cúpula de algumas PMs percebeu o potencial da web 2.0. "A demanda por transparência cresceu quando alguns servidores decidiram abrir informações que antes não eram abertas. Eles se anteciparam a uma abertura oficial", diz Guilherme Canela, coordenador de Comunicação e Informação da Unesco.

O primeiro Comando-Geral a criar um blog foi em Goiás - sob sugestão de um soldado blogueiro, Robson Niedson. "É uma quebra de paradigmas. As PMs têm origem nas Forças Armadas, que são ainda bastante fechadas", diz Niedson, autor do blog Diário do Stive. Agora, os Comandos Gerais das PMs do Rio, de São Paulo e, até o fim do ano, da Bahia, estarão na web 2.0. Para o comandante-geral da PM de São Paulo, Álvaro Camilo, a ferramenta é uma "forma de o comando reconhecer o valor do policial."

Em agosto, os blogs foram tema de oficina na Conferência Nacional de Segurança, realizada em Brasília. As aulas foram dadas pelos PMs Sousa, Ferreira e Niedson. Para Anabela, ainda é cedo para dizer se o fenômeno está mudando a estrutura da polícia, mas novos canais de diálogo estão surgindo. "Quando você entra em um movimento de maior transparência e interatividade, de mostrar o que acontece atrás dos muros, há um potencial de transformação irreversível", define Canela.

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